Há alguns dias, um médico obstetra da cidade de Natal, RN, compartilhou em seu perfil em uma rede social sua estupefação com a mulher que ele teria atendido num hospital particular na Zona Leste de sua cidade. Sua descrição remete a imagem de uma mulher surtada, gritando com o médico, correndo nua pelos corredores do hospital atrás de seu bebê, exigindo ficar com a sua placenta.

O caso da “surtada comedora de placenta” ganhou proporções. O relato inicial, do profissional reconhecido, professor universitário, traz elementos que se fazem passar por humorísticos: “Pediu uma tesoura pra cortar um pedaço e um pouco de coentro pra temperar. Não tinha. Comeu sem o tempero.” A notícia da mulher que comeu “a própria placenta” se espalhou rapidamente. Haveria ou não haveria evidência etnográfica de que humanos comessem a própria placenta? A mulher teria surtado pelo desejo ávido de comer sua placenta? Ou se tratava de uma mulher com duvidosa sanidade mental, que surtou em pleno trabalho de parto, nas mãos do Doutor?

O que a mulher queria fazer com sua placenta era, das questões levantadas por este caso, a menor. Para quem acompanha o cenário obstétrico brasileiro, não era preciso mais que o relato inicial do médico para perceber que aquela mulher, “surtada”, tinha sido desrespeitada no seus direitos: de escolher entre receber ou não intervenções obstétricas; de ficar com sua placenta, e fazer dela o que desejasse; de ficar com o seu bebê em alojamento conjunto, recebendo as intervenções que ela aceitasse; de ter sua privacidade, sua dignidade e suas escolhas respeitadas.

No caso em pauta, chamou a atenção que o fato tenha tomado proporção da forma que tomou antes que se ouvisse o que a mulher tinha a dizer. A publicação do relato do médico na rede social foi suficiente para que a pauta jornalística surgisse, e se espalhasse. Mas não houve jornalista que achasse apropriado ou necessário ouvir a mulher antes de escrever sua matéria.

A publicação da perspectiva da mulher só aconteceu porque ela própria procurou a “Cientista que virou mãe”, enviando seu relato de parto. Ela não é louca, ainda que seja oportuno frisar que ter autonomia sobre seu corpo seja algo dos direitos humanos, e que não ser vítima de violência obstétrica é direito de toda mulher, independente de seu estado de saúde física e mental. Ela tentou ser ouvida, e não conseguiu. Ela tentou burlar regras que oprimem mulheres, família, todos os dias, exigindo ficar com seu filho que acabara de nascer, e o conseguiu a força. Ela teve o seu corpo violentado, sente-se como se tivesse sido estuprada, e o homem responsável por isto, o médico que “fez seu parto” (e não a deixou fazê-lo), a ridicularizou. Ele desqualificou a mulher, antes mesmo que repercutissem entre os seus pares o absurdo do atendimento obstétrico que ele havia oferecido àquela mulher – a partir do relato dela, percebemos negligência, ameaça, intervenções desnecessárias feitas sem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, lesão corporal, e, falta de ética ao publicizar uma situação que poderia levar, sem dificuldade, a identificação da parturiente (crime contra a honra?) já que que numa cidade de médio porte como é Natal, não seria impossível saber qual a mulher que ele atendeu no dia 2 de julho, num parto normal às 20h30min.

Este ponto é o que eu gostaria de frisar: o da deslegitimização da mulher que reivindica seu corpo na hora do parto. Retrata-la como louca e descontrolada é uma forma confortável de reafirmar uma relação autoritativa, de coloca-la “em seu devido lugar”, um lugar inferior, de onde não se toma as decisões sobre o parto, este evento médico (já que é ele, o obstetra, quem “faz o parto”). Foucault fala das diversas formas de controle do discurso, e uma delas é a separação da loucura. O discurso do louco não tem crédito, não é ouvido, salvo em situações ritualizadas, como naquelas em que ele se torna o intermediário entre dois mundos (o que comprova sua separação do mundo dos lúcidos normais).

Hoje em dia, no Brasil, quando uma mulher se posiciona mais claramente com relação a suas preferências na hora do parto, para um profissional de saúde que não está disposto ou preparado para aceitar que ela pode ter escolhas, surge a estupefação. Pois aqui, reivindicar o próprio corpo no momento do parto ainda é algo problemático (coisa de mulher problemática, ou que quer causar problemas).

O movimento de humanização do parto e do nascimento é formado por um número crescente de “mulheres surtadas comedoras de placenta”. Mulheres que ousam reivindicar o que lhes pertence, e questionam todo um sistema obstétrico que insiste em tornar o nascimento um evento médico, asséptico. Neste sistema, somos separadas de nossos corpos, da animalidade e da sexualidade do nascimento.

Que outras mulheres, então, surtem nos hospitais brasileiros, e sejam o que faltava para que alguns médicos deixem de “fazer os partos” que pertencem, assim como as placentas, às mulheres. 

Estamos em plena campanha pelo direito a um parto respeitoso para todas as mulheres. Divulgamos várias ações neste sentido, quero agora reforçar nossa coleta de denúncias de casos de violência obstétrica no Recife.
Já falamos de alguns exemplos, então vou agora me deter a alguns detalhes para pensarmos a respeito.

Deixando de lado todo tipo de questão que vá além das constatações clínicas, o pré-natal se transformou hoje na prescrição e leitura de exames, pesagem e aferição da pressão arterial da gestante. "Dr., vamos conversar sobre o parto? Deixe comigo, minha filha, se preocupe com o enxoval...". Não se fala sobre o parto, não se fala sobre o trabalho de parto - seus indícios, suas fases, sua fisiologia. Algo que me chama a atenção é o número de mulheres que, ao começarem a sentir contrações, vão para a internet postar perguntas nas redes sociais: "Será que chegou a hora? E agora?". Esta realidade é bastante diferente do tempo de nossas avós, quando, de uma maneira ou de outra, as mulheres presenciavam em suas casas o nascimento de muitos bebês. Hoje, a mulher que quiser ter acesso à informação, muito provavelmente terá que procurá-la por conta própria, em grupos de apoio ao parto normal, presenciais ou virtuais.
Desinformada e insegura com relação ao que acontece em seu corpo no momento do parto e no puerpério, a mulher fica diante de um engodo de escolha. Ou é cortada por baixo (o parto normal repleto de intervenções, com a episiotomia como seu símbolo maior), ou é cortada por cima (e se submete a uma cesárea que supostamente a livraria de todo o sofrimento de um parto normal "medieval".

Há quem diga que a causa das altas taxas de cesáreas é que as mulheres de hoje não querem mais ter um parto normal. Certamente, a maneira como nossa sociedade lida com a dor (anestesiando-a, sempre), é diversa de como era em outros tempos. Mas ficar neste plano é ser, no mínimo simplista.
Algumas pesquisas têm apontado para a preferência da mulher, a princípio, pelo parto normal, e como esta vontade é desencorajada ou desrespeitada por seus médicos.

http://www.bemparana.com.br/noticia/57995/mulheres-preferem-parto-normal-mas-acabam-fazendo-cesariana
http://www.aleitamento.com/humanizacao-parto/conteudo.asp?cod=695
http://www.istoe.com.br/reportagens/detalhePrint.htm?idReportagem=25434&txPrint=completo

Há mulheres, também, que ao engravidarem não têm uma preferência clara pela via de parto, ou que até concordam com os benefícios do parto normal, mas que em suas trajetórias de vida tiveram contato com inúmeros relatos de atendimentos desastrosos a mulheres próximas. Acontece que, como eu disse acima, o tipo de atendimento pré-natal que a maioria de nós tem acesso de forma alguma trabalha com estas questões.

banalização da cesárea eletiva é tamanha na atualidade, que chegamos aos absurdos 97,3% de cesáreas em um hospital da rede privada do Recife no ano de 2010 (e eu soube de um dado ainda não confirmado de que outra maternidade teria tido, em 2011, 100% de cesáreas!).

Estas cesáreas feitas sem justificativa médica plausível, como é o caso da maioria delas, já que a OMS recomenda um percentual máximo de 15%, além de colocarem mulheres e bebês em risco maior, trazem problemas para as mulheres que desejam um parto normal. Não é exagero dizer que um dos maiores medos das mulheres grávidas que desejam parir em hospitais privados é entrar em trabalho de parto e não conseguir vaga nos hospitais. A peregrinação das mulheres em trabalho de parto é, assim, colocada para as mulheres de classe média, assim como para as usuárias do SUS - que frequentemente são encaminhadas para maternidades em outras cidades da região metropolitana, dificultando o acesso dos acompanhantes e visitantes durante a internação.

A mão e o poder do médico obstetra não se limitam, contudo, à prática da cesárea mal recomendada. A despeito da etimologia da palavra obstetrícia, obstare: estar ao lado, parece que há uma grande dificuldade por parte dos profissionais que assistem partos em permanecer neste plano, o da assistência. Isto não seria pouco, é o que toda mulher realmente precisa, de alguém que lhe ofereça a segurança de saber que, se houver necessidade de uma intervenção, há um profissional ali lhe dando a atenção necessária. O que acontece, pelo contrário, é o abuso de intervenções mal indicadas, mal conduzidas, sem informação ou consentimento das mulheres. Faz-se o que se acredita que precisa ser feito, em todas as mulheres - a internação precoce, a administração de ocitocina sintética, a analgesia, a episiotomia, etc. etc.
As intervenções desnecessárias começam no pré-natal, na solicitação de exames que vão além das necessidades da maioria das mulheres, gestantes de baixo risco, e se estendem até os primeiros cuidados com o bebê, com as aspirações, lavagens, colírio...

http://ishtarsorocaba.blogspot.com.br/2012/05/as-50-intervencoes-desnecessarias.html?spref=fb

A questão dos acompanhantes também merece registro. A Lei Federal determina que o acompanhante deverá ser escolhido pela mulher, mas as instituições públicas insistem em restringir a entrada de homens, alegando falta de estrutura (enquanto o Ministério da Saúde diz que há recursos para os hospitais públicos se reestruturarem, mas que eles não encaminham os projetos). Ouvi uma vez a fala de uma representantes de uma maternidade municipal de Recife sobre o “grande problema” que é quando um homem “resolve” ver o parto de sua companheira, porque é preciso acionar os psicólogos, conseguir um laudo psiquiátrico para atestar que ele tem condições de estar presente sem incomodar. Fala dita numa audiência pública sobre a Lei do Acompanhante, no MP-PE! Em alguns lugares, restringe-se a entrada de qualquer acompanhante, independentemente de sexo. E na rede privada, continua a cobrança de taxas já proibidas, que são cobradas em espécie e antecipadamente. Em todos os hospitais, dependendo do médico que atende o parto, a mulher precisa escolher entre a companhia do companheiro ou da doula (que muitos médicos consideram como sendo um empecilho para sua boa prática intervencionista). Claramente, não há o entendimento de que a presença do acompanhante de livre escolha da mulher no momento de seu parto é positiva, saudável e deva ser estimulada.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11108.htm

http://www.saudebrasilnet.com.br/Direitos/taxa-para-acompanhante-de-parto-fica-proibida.html

Tudo se complica e o caos se completa quando, em meio a todo este atendimento de péssima qualidade, a mulher é literalmente ofendida, mal tratada, negligenciada. Uma pesquisa aponta para um percentual de 25% das mulheres se dizendo vítima de maus tratos durante seus partos. Um quarto das mulheres que participaram desta entrevista, diz ter ouvido frases humilhantes dos profissionais que deveriam estar lá para atendê-las com dignidade. Quem nunca ouviu uma história com um "não grita, se não teu bebe vai ficar surdo", "pra fazer, não reclamou", "se entrou tem que sair", ou os mais sutis, "vai, filha, foça, agora, assim não, tá fazendo errado, não tá ajudando".
Este percentual seria ainda maior se considerássemos toda intervenção feita de maneira abusiva e sem o consentimento da mulher como sendo também um dos maus tratos possíveis.

Por tudo isto, dizemos: PARTO NAO COMBINA COM VIOLÊNCIA. PARTO COMBINA COM RESPEITO.

Denuncie os casos de violência obstétrica e institucional ao qual você, sua irmã, sua companheira, sua filha, sua amiga... foi submetida! Estamos aqui para ajudar neste processo. Você sabia que o Ministério da Saúde não dispõe de nenhum serviço com esta finalidade? Que a violência contra a mulher, para o Governo Brasileiro, a despeito de todas as regulamentações e recomendações para um parto seguro, e da política de humanização do parto, parece estar preparado apenas para receber as denuncias de violência doméstica? 
Vamos fazer acontecer esta demanda, levando casos concretos aos Ministérios Públicos Estaduais e Federal, e fazendo com que estes, e também os Censelhos de Medicina, se posicionem a favor de um atendimento mais respeitoso ao parto no Brasil.